quarta-feira, 27 de novembro de 2024

PROJETO CCDH > CENTRO CULTURAL DE DESENVOLVIMENTO HUMANO E DE CONVIVÊNCIA INTERGERACIONAL

       PROJETO CCDH

CENTRO CULTURAL DE DESENVOLVIMENTO HUMANO E DE CONVIVÊNCIA INTERGERACIONAL

A idéia desse Projeto nasce como uma reação ao difícil processo de transição para uma sociedade, cada vez mais tecnológica, que se impõe de modo autoritário, sufocando a natureza humana, nas suas expressões mais cordiais e afetivas, quebrando os laços de aproximação, com valores meramente materiais e consumistas, com o fim único de fazer girar a roda da produção econômica, na qual os seres humanos somos apenas peças de uma engrenagem alienante.

A reação consiste em valorizar as Artes e o campo emocional do ócio criativo, que conduzirá ao autoconhecimento e aos estados de bem-estar emocional, gratificando a essencialidade da natureza humana, ao mesmo tempo em que acordarão as pessoas, para o conhecimento do sentido maior de suas vidas, que é existir na totalidade de seus sentimentos e potencialidades criativas, para além das regras e do trabalho produtivo de bens de mercado.

O Projeto tem como propósito desenvolver habilidades  e competências, através de cursos voltados para Humanidades, e direcionados para o público 40/50+, não obstante o público de outras faixas etárias, também poderá participar.

O Projeto

O Projeto visa desenvolver uma plataforma de Cursos, que despertem nas pessoas, suas vocações para a inovação de campos das suas sensibilidades para as artes e o conhecimento de humanidades, dando-lhes a oportunidade de se autodescobrirem, e revelarem tendências vocacionadas para o desempenho de potencialidades até então sufocadas, ou não manifestas, porém latentes por serem virtudes naturais.

A plataforma oferecerá cursos nas seguintes áreas:

ESCRITA CRIATIVA E RECREATIVA

A ARTE DA "ESCUTATÓRIA". A IMPORTÂNCIA DE OUVIR IDÉIAS, QUE SE TROCAM NO DIÁLOGO

..................................................

HISTÓRIA DA ARTE

HISTÓRIA DO CINEMA

HISTÓRIA DA FILOSOFIA

PILARES BÁSICOS DA FILOSOFIA PARA A VIDA COTIDIANA

ORATÓRIA

ARTES DO TEATRO 

INICIAÇÃO ÀS ARTES DO TEATRO POPULAR DE MAMULENGOS

CURSO TEATRAL DE DECLAMAÇÃO.

CURSO DE PINTURA

CURSO DE ARTES DE MOSAICO

CONTADOR(A) DE HISTÓRIAS INFANTIS

PRÁTICAS SOCIAIS DE ENCONTROS E APROXIMAÇÃO E DE CONVIVÊNCIA INTERGERACIONAL  

REUNIÕES INTERATIVAS COM PALESTRAS DE NATUREZA CULTURAL, COM TEMAS PREVIAMENTE ANUNCIADOS ONLINE, NO MURAL INFORMATIVO DO CENTRO CULTURAL.

(Seria interessante um programa de orientação sobre princípios básicos de saúde, voltados para essas faixas etárias).

Cada uma dessas atividades culturais, será apresentada por profissionais com experiência pedagógica capaz de desenvolver, através de módulos educacionais, um modelo didático e funcional que desperte tais habilidades. 

A proposta é direcionada para um público 40/50+, porém aberta aos interessados de outras faixas etárias.

ESTRATÉGIAS 

1. Buscar no mercado, profissionais habilitados e com experiência de campo, para desenvolver em aulas presenciais, a iniciação e fundamentação do ensino através de módulos educativos, que serão disponibilizados online, ao final dos Cursos, como forma de reforço de aprendizagem e de memorização do que foi exposto nos Cursos.

2. Procurar espaços para realização dos eventos, priorizando segmentos voltados para a Cultura ou atividades assemelhadas, com frequência de público aberto a tais iniciativas, como livrarias, cafeterias, associações culturais, Clubes com atividades sócio-culturais para seus integrantes, Faculdades etc.

26 de novembro de 2024

prof.mario moura

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

LEITURA E APRESENTAÇAO DO LIVRO “NÃO NASCEMOS PRONTOS”, DE MARIO SÉRGIO CORTELLA

LEITURA E APRESENTAÇAO DO LIVRO “NÃO NASCEMOS PRONTOS”, DE MARIO SÉRGIO CORTELLA

O filósofo Cortella é um provocador de absolutos.

Irreverente o suficiente, para nos desacomodar com suas impertinências, sobre questões que nos atormentam desde que nos tornamos cognoscentes, depois de perambular por um bom tempo, pelo planeta Terra. Estamos por aqui, há cerca de 2,5 milhões de anos... e ainda não conseguimos entender direito o nosso papel em toda essa criação...

Esse livro, NÃO NASCEMOS PRONTOS, com seu subtítulo "Provocações filosóficas", já indica o seu propósito de incomodar, propondo alguns indícios de reflexões, que somente nos acodem, em momentos que cessamos a correria da mente, entupida das fantasias de uma realidade suposta, que são inventadas para nos distrair dos mistérios da nossa existência. Nessa avalanche de informações, que caracteriza o nosso tempo, mais adormece e entorpece do que nos espanta.

O "espanto" é o princípio da filosofia, cujo símbolo se representa pela coruja.

Por que a coruja simboliza esse espanto, essa interrogação diante dos mistérios?

A analogia nos leva a essa ave noturna, por sua natureza de enxergar através da escuridão da noite, também simbolizando a reflexão e o conhecimento racional e intuitivo.

Vem da mitologia grega, Athena, a deusa da sabedoria, que tinha uma coruja como símbolo, assim como Minerva, na simbologia romana.

Esse "enxergar através da escuridão", traz a analogia com a filosofia, de procurar revelar na "escuridão" dos insondáveis segredos da vida, a possível luz que explique esses mistérios.

Nisso reside o próposito das reflexões de Cortella, que provoca a necessidade de construir a nossa humanidade, já que "não nascemos prontos", portando as virtudes da sabedoria.

Não é um livro no sentido tradicional, mas uma coletânea de pequenas crônicas, que vão construindo, a partir do cotidiano, de fragmentos da vida real, a inquietação existencial, e procurando revelar esse impulso de nos despertar, através do constante incômodo de interrogar o mistério.

Essa construção da nossa essência, na busca de responder as perguntas que sempre nos inquietam, é o propósito de Cortella.

Caberia alinhar algumas delas:

Quem somos nós? Por que estamos aqui? O que significa a vida? Qual o seu sentido final? Por que é tão curta a vida, na eternidade do tempo?

Tais questionamentos sempre incomodaram os filósofos, desde a antiguidade. E até hoje, esses enigmas continuam sem respostas, e nos incomodam e nos levam a refletir, quando estamos despertos.

Esse "estar desperto", é a raiz da evolução das civilizações, que através dos tempos, vai edificando mitologias, crenças, conhecimentos e ciência, que nos expliquem o grande mistério.

Nosso momento histórico, um tempo de grandes avanços tecnológicos, e que nos distinguem dos nossos antepassados e das civilizações que nos antecederam, com as novas revelações científicas que tais tecnologias nos deram acesso, continua, apesar de todo o avanço científico, sem respostas para os questionamentos fundamentais, que especulam o insondável mistério do sentido da vida.

"O animal satisfeiro dorme", escreveu Guimarães Rosa.

Uma afirmação da monotonia existencial, do silêncio que amordaça a inquietação que o conhecimento desperta. A "satisfação" é a morte da inteligência!

Pontuei três crônicas, dentre as trinta e uma que compõem o livro, e que são provocativas, em suas narrativas, como todas as demais.

Estabeleci um roteiro, com questões subjetivas, que são as "entrelinhas", isto é, o que não está visível na narrativa, mas é a sua essência e seu propósito.

Primeiramente, é interessante saber se alguém do grupo, leu o livro. Seria importante o comentário, pois se apresentaria um outro olhar, uma nova impressão, uma nova leitura a respeito do que pretende o autor.

Aqui, as crônicas selecionadas:


> DESCANSE EM PAZ?

> A MÍDIA COMO CORPO DOCENTE

>O TRIUNFO DA MORBIDEZ?


Em princípio, vamos tentar encontrar a correlação entre elas, e que sentimentos as unem, e do que pretendem nos convencer, visto que partimos sempre do princípio, quando lemos um livro, de que há uma transferência de emoções ou de conceitos, ou até mesmo de certa identidade com o autor, com a narrativa e com seus afetos. Comecemos com a crônica...


> DESCANSE EM PAZ?

A morte, o tempo, a velocidade da vida, ou a falta do tempo para expressar a vida...

Cemitério: seu sentido e significado etimológico. (Derivada do grego, usada em vários idiomas, significa "lugar para dormir, dormitório, lugar para descanso").

As perguntas que devem ser feitas, são: 

qual a origem dessa aceleração do tempo vital? 

O que acionou esta nova condição de "vida sem tempo"?

E para onde vamos, e o que fazer com a noção de eternidade?


> A MÍDIA COMO CORPO DOCENTE

´

É mais do que evidente, o poder de influência das mídias, sobre as pessoas. O domínio absoluto das mídias, é a grande estratégia dos mercados, ao orientar o consumo, "fazer andar o consumo", mover a roda do "consumo inconsciente" e da sua permanente insatisfação consumista. Sempre mais e mais consumo... mover a "economia" com a insensatez de que tudo deve ser apenas consumo... sem a projeção de construir uma sociedade para o futuro de um mundo destinado ao verdadeiro sentido da existência humana.. 

Vivemos o tempo da "consumolatria".  Do "bezerro de ouro"...

A ausência da família (ou a sua dissolução?) na formação dos jovens e adolescentes, autoriza a mídia a exercer a função do processo de educação e orientação para os interesses e comportamentos sociais.

A mídia (o conjunto dos meios de comunicação social de massas, e que abrange o rádio, o cinema, a televisão, a imprensa,  os satélites de comunicações, os meios eletrônicos e telemáticos de comunicação etc.) como formação precedente, em todos os campos de desenvolvimento e orientação da formação dos jovens e adolescentes, é o fator de transformação social, para o bem ou para o mal.

Cabe discutir se essa "mídia educativa", e tão "onipresente", realmente contém uma pedagogia com objetivos que visem o processo de crescimento dessas pessoas, se demonstra um efeito educacional sobre essas pessoas, que as levem ao seu pleno estado de consciência e desenvolvimento, ou se apenas as orientam para o consumo "das novidades do mercado".

Essa é a discussão que interessa ao presente, e principalmente, ao futuro das sociedades e das próximas gerações.


> O TRIUNFO DA MORBIDEZ

Não estamos nos viciando em remédios, mas sim em doenças, que entendemos como normais, como parte dos diversos processos que organizam a vida social. Comportamentos e hábitos se formam sob essa perspectiva, considerada como parte integrante dessa "normalidade". 

Ansiedade, depressão, tédio, ausência de perspectiva emocional, estresse, são alguns dos sintomas "normais" que integram a "vida pós-moderna". 

Estamos vivendo intensamente em torno de patologias, e de submissão ao poder sedutor da morbidez, da hipocondria.

E a grande preocupação que nos deve manter alertas, é como se desenhará o futuro, quando a "normalidade" é a invisibilidade, a não percepção da doença que nos acomete.


CONVERGÊNCIA

Os pontos de convergencia das reflexões propostas nas crônicas apresentadas, situam-se nas dificuldades de nos apropriarmos de respostas, que nos indiquem o sentido essencial da nossa existência, de compreender a extensão das significativas mudanças que alteram as nossas relações com a vida, e sobretudo o sentido dos mistérios que nos cercam.

Não somos uma ilha, vivemos em colméias, organizamos os princípios legais da convivência social, mas vivemos no estado de permanentes peregrinos em busca do Norte das respostas que nos iluminem.


prof. mario moura

06 de novembro de 2024


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DO LIVRO "A ERA DO RESSENTIMENTO"

 Análise do livro A ERA DO RESSENTIMENTO


ROTEIRO PARA DISSERTAR SOBRE O LIVRO "A ERA DO RESSENTIMENTO"

“SEM HIPOCRISIA, NÃO HÁ CIVILIZAÇÃO – ISSO É A PROVA DE QUE SOMOS DESGRAÇADOS: PRECISAMOS DA FALTA DE CARÁTER, COMO CIMENTO DA VIDA COLETIVA." (L.F.Ponde)

1. Quem é LUIZ FELIPE DE CERQUEIRA E SILVA PONDÉ?

Nasceu em Recife, PE, em 29 de abril de 1959.
Filósofo, escritor, ensaísta, professor universitário, palestrante.
O pensamento e a filosofia de Pondé, baseiam-se num certo pessimismo, na valorização das tradições religiosas ocidentais, e no combate ao "pensamento politicamente correto" nos meios universitários.

Carrega fortes influências do filósofo alemão Friedrich Nietzche e do existencialismo.
Admirador inconteste de Nelson Rodrigues, a quem denomina “um jansenista brasileiro".

Pondé muitas vezes se expressa por meio de aforismos sobre o cotidiano.

(JANSENISMO - doutrina religiosa inspirada nas idéias de um bispo (Cornelius Otto Jansenius).
Defende a interpretação das teorias de Agostinho de Hipona sobre a predestinação, contra as teses tomistas do aristotelismo e do livre-arbítrio.)

(AFORISMO - palavra de origem grega (aphorismós), cujo significado é limitação, definição breve, sentença, embora condense conceitos amplos em poucas palavras.
Os aforismos nem sempre têm intenção de ser uma verdade absoluta, encerrada em si e para si.
Qualquer forma de expressão sucinta de um pensamento moral, de definição breve. Sentença, máxima, adágio, axioma, provérbio.

Exemplos de aforismos:

"A vida é breve, a velhice é longa." "Seria cômico, se não fosse trágico!" "Rir é o melhor remédio." "Só percebemos o valor da água, quando a fonte seca." "Tal pai, tal filho." "Devagar se vai longe." etc.

2. SUAS OBRAS

A Era do Ressentimento - Uma agenda para o contemporâneo (2014)
O Homem e Seus Sintomas(2013)
A Resistência (2014)
Felicidade e seus Inversos (2015)
O que é o amor (2016)
A Arte de Ser Livre (2017)
As 10 Maiores Ideias da Filosofia (2018)
O que é ser humano (2019)
A Morte do Outro (2020)
Guia Politicamente Incorreto da Filosofia
Filosofia para corajosos
Política no cotidiano
(12)... e outras

3. RESSENTIMENTO

Percebo uma certa correlação entre o livro "A ERA DO RESSENTIMENTO", e o que expõe o filósofo coreano Byung Chul Han nos seus ensaios "SOCIEDADE DO CANSAÇO", "INFOCRACIA - Digitalização e a crise da democracia" e "VIDA CONTEMPLATIVA - Ou sobre a inatividade".

Focando o livro do filósofo Byung Chul Han, nos leva a perceber que o conceito da "SOCIEDADE DO CANSAÇO", refere-se à ideia de que  a sociedade contemporânea está nos levando a um estado de exaustão física e mental, devido ao excesso de trabalho, pressão por desempenho e busca incessante por felicidade".
Segundo Byung Chul Han, "vivemos em uma época em que as pessoas estão trabalhando mais horas do que nunca, e sofrem uma pressão constante para serem perfeitas, o que gera estresse, ansiedade e diminuição da qualidade de vida"

Nesse contexto, Byung critica a ideia de que a felicidade é um objetivo constante e que qualquer coisa menos do que isso, é um fracasso.
Em vez disso, ele defende que precisamos mudar a forma como pensamos sobre o trabalho e a felicidade, aceitando que a vida é cheia de altos e baixos.
Além disso,Byung destaca que a "sociedade do cansaço" é caracterizada pela "violência neuronal", onde as pessoas cobram-se cada  vez mais para apresentar resultados, tornando-se elas mesmas vigilantes e punidoras de suas ações. Isso leva a uma sensação de inadequação e diminuição da autoestima.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA SOCIEDADE DO CANSAÇO:
1. Excesso de trabalho e pressão por desempenho;
2. Busca incessante por felicidade;
3. Violência neuronal e autocobrança;
4. Diminuição da qualidade de vida e aumento do estresse e da ansiedade.

"Ressentimento": o que é esse sentimento, e o que representa em nossa vida?
Seu sentido nos remete à ideia de irritação, amargura; é uma emoção que foi descrita como uma mistura de decepção, nojo, raiva, rancor, medo...
Outros psicólogos consideram um estado de espírito, ou uma emoção secundária, que pode ser ativada por um insulto, por uma injustiça, injúria etc.
É uma defesa contra situações injustas, ou circunstâncias desfavoráveis.

Na obra "A era do ressentimento", Pondé considera tal afeto, uma doença do nosso tempo. Ele aborda a construção social a partir desse afeto, e para tanto, analisa as relações sociais em suas diversas dimensões, destacando tanto seus aspectos conflitantes, como suas dificuldades, propondo-se a demonstrar a falta de organicidade e integração social, a partir desse sentimento.

Segundo Pondé, todos os movimentos significativos que alteram as relações humanas e históricas, nascem do desencontro e do sentimento de não pertencimento, do estranhamento de não se sentir parte do conjunto social.

Pondé afasta-se das noções sociológicas e filosóficas que interpretam idealmente a sociedade, como sendo o resultado de um processo ideologicamente  integrado e orgânico, como é a história para Hegel e Marx, optando por seguir Daniel Bell, para quem "a sociedade e a História são disjuntivas" em suas dimensões constituintes.
Ou seja, não estão indo para lugar algum e é contraditória, se observada a soma dos elementos que compõem a sociedade e a vida como um todo.
Não há integração e nem organicidade.

Ironiza a ideia de que vivemos em "rede", o locus onde as pessoas se comunicam intensamente, construindo um "mundo melhor".
O fato das tecnologias informatizadas ampliarem o campo das comunicações, de existirem diversidades de relações globais e computadores que se comunicam, esses fatos não implicam a idéia de "redes" e significados integrados que indiquem o avanço da sociedade para um "mundo melhor".

Pondé refere-se a disjunção entre História e Sociedade, falta de sentido orgânico entre elas, apontando as três dimensões, que as compõem:

1. Estrutura Tecnoeconômica (sistema responsável pela produção e distribuição de bens e serviços), visando a redução da escassez, condição natural da vida;

2. Política (instância da Administração e do Poder, que legitima as ações e sua legalidade);

3. Cultural (dimensão que produz, organiza e distribui os valores simbólicos que identificam um grupamento humano, ou uma sociedade). Essa identidade simbolicamente construída pela cultura, nos diz quem somos, por que vivemos e o modo como vivemos.

A disjunção dessas três dimensões, acontece nas sociedades modernas avançadas, gerando conflitos contínuos nas estruturas, desestabilizando o Sistema, e sendo responsável pelo conjunto desintegrado da vida social, política e cultural.

A essa disjunção, que desintegra as três dimensões, e que se constitui como a contradição do Sistema, Pondé denomina "a era do ressentimento".

Segundo Pondé, tal disjunção se revela insolúvel, dando ao nosso século, por força das contradições do sistema capitalista,
o desacordo e o mal-estar permanente, o que desencadeia a "era do ressentimento".


O mundo contemporâneo é marcado pelo secularismo, que se caracteriza pela "vida racional", distante da "liturgia", que marcou a civilização cristã ocidental.
(Liturgia: é a compilação de ritos e cerimônias relativas aos ofícios divinos das igrejas cristãs. É uma palavra que se aplica mais a missas ou rituais da igreja católica.)

O mundo secular nasce com a modernidade e o distanciamento da vida religiosa comunitária. Sua marca é o profissionalismo, o individualismo e o industrialismo, sob o signo das democracias liberais assinaladas pelo consumo.
A emancipação feminina, é o fenômeno decorrente desse liberalismo.


"De qualquer forma, a marca definitiva do contemporâneo é o narcisismo estéril e o individualismo histérico."

Para Pondé, "contemporâneo" não é um conceito temporal, mas um estilo de vida. "Um acúmulo de crenças comumente relacionadas ao narcisismo e às suas soluções de continuidade."
, 
Pondé assinala que o "ressentimento" é um problema profundo, um "drama ontológico"  (ONTOLOGIA > do grego ontos (ente) logia (discurso lógico), ramo da filosofia que estuda conceitos como existência, ser, devir e realidade. Inclui as questões de como as entidades são agrupadas em categorias básicas (substâncias, propriedades, relações , estados de coisas e eventos) e quais dessas entidades existem no nível mais fundamental. É um dos ramos mais importantes da Metafísica, por estudar conceitos existenciais. É um dos ramos mais relevantes da filosofia, no geral.

"O ressentimento é nossa fúria para com a mortalidade que nos define e torna quase todas as nossas qualidades irrelevantes."


Interessante observar o olhar de Pondé, sobre o processo do envelhecimento:

"não envelhecemos, apodrecemos. A maturidade está fora de moda. O espelho é nosso algoz." (...) Difícil resistir ao pânico do envelhecimento. Mas hoje em dia, é pior porque são tantos os idosos, que sabemos que a maioria esmagadora não sabe nada de especial, apenas perdem as funções vitais e se tornam obsoletos.
 
Como resistir a esse desespero? Algumas cirurgias e livros de autoajuda, além de terapias baratas, nos ajudam a resistir ao terror do envelhecimento.
(...) O resultado é a aposta em envelhecer, mas se tornar, com os anos, um retardado feliz. À medida que a pele murcha, e o corpo cai, a alma se faz ridícula."


Pergunto: o que pensará de nós a posteridade?
E Pondé responde:

"Lembrarão de nós como mimados, ressentidos e covardes."

"O homem contemporâneo é, talvez, o mais covarde que já caminhou sobre a Terra, sobre a qual deixará sua marca de incompetência em lidar com a morte, a dor e o fracasso."

Não diria que Pondé, em seu livro, publicado em 2014, A ERA DO RESSENTIMENTO, é um pessimista, no sentido filosófico do termo. 
Não sei como hoje, dez anos após a publicação, pensa Pondé, a respeito de vários conceitos espalhados pelas páginas desse livro.
 
Não faço ideia. Sei que dez anos para um pensador, para quem mantém uma estreita relação de amor com a filosofia, é muito tempo!! 
Muitos conceitos se descristalizam, palavras ganham novos sentidos semânticos, conceitos são filhos mutantes da ciência, e como disse, não sei o que Pondé pensa desse seu filho, A ERA DO RESSENTIMENTO.

Sim, não conclui o que penso do posicionamento de Pondé, quanto ao seu olhar sobre a vida e os acontecimento que nos enredam.
O conceito de "ressentimento", em vários momentos da narrativa, surge dubiamente, o que causa alguma incerteza conceitual.
Não diria que Pondé é um pessimista, mas um "anarquista conceitual".

Considerando que o ANARQUISMO é uma ideologia política que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação, seja ela política, econômica, social ou cultural, como o Estado, o Capitalismo, instituições religiosas, o racismo e o patriarcado. 
Combina o prefixo grego AN, que significa SEM, com o significado ARKH (ARQUIA), que significa assumir a liderança.
Equivale dizer > sem liderança, sem controle.

Um equilibrista, que passeia no fio distendido da sabedoria, no grande circo do conhecimento humano...
Sarcástico? Sim, em muitos momentos de suas reflexões, mas não na totalidade do texto, em que ora é um idealista, ora um ideológio, ora irônico, ora sarcástico.

29 de outubro de 2024
prof. mario moura

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

ANÁLISE E APRESENTAÇÃO DO LIVRO "A ERA DO RESSENTIMENTO"

Análise e apresentação do livro A ERA DO RESSENTIMENTO

ROTEIRO PARA DISSERTAR SOBRE O LIVRO "A ERA DO RESSENTIMENTO"

“SEM HIPOCRISIA, NÃO HÁ CIVILIZAÇÃO – ISSO É A PROVA DE QUE SOMOS DESGRAÇADOS: PRECISAMOS DA FALTA DE CARÁTER, COMO CIMENTO DA VIDA COLETIVA." (L.F.Ponde)

1. Quem é LUIZ FELIPE DE CERQUEIRA E SILVA PONDÉ?

Nasceu em Recife, PE, em 29 de abril de 1959.
Filósofo, escritor, ensaísta, professor universitário, palestrante.
O pensamento e a filosofia de Pondé, baseiam-se num certo pessimismo, na valorização das tradições religiosas ocidentais, e no combate ao "pensamento politicamente correto" nos meios universitários.

Carrega fortes influências do filósofo alemão Friedrich Nietzche e do existencialismo.
Admirador inconteste de Nelson Rodrigues, a quem denomina “um jansenista brasileiro".

Pondé muitas vezes se expressa por meio de aforismos sobre o cotidiano.

(JANSENISMO - doutrina religiosa inspirada nas idéias de um bispo (Cornelius Otto Jansenius).
Defende a interpretação das teorias de Agostinho de Hipona sobre a predestinação, contra as teses tomistas do aristotelismo e do livre-arbítrio.)

(AFORISMO - palavra de origem grega (aphorismós), cujo significado é limitação, definição breve, sentença, embora condense conceitos amplos em poucas palavras.
Os aforismos nem sempre têm intenção de ser uma verdade absoluta, encerrada em si e para si.
Qualquer forma de expressão sucinta de um pensamento moral, de definição breve. Sentença, máxima, adágio, axioma, provérbio.

Exemplos de aforismos:

"A vida é breve, a velhice é longa." "Seria cômico, se não fosse trágico!" "Rir é o melhor remédio." "Só percebemos o valor da água, quando a fonte seca." "Tal pai, tal filho." "Devagar se vai longe." etc.

2. SUAS OBRAS

A Era do Ressentimento - Uma agenda para o contemporâneo (2014)
O Homem e Seus Sintomas(2013)
A Resistência (2014)
Felicidade e seus Inversos (2015)
O que é o amor (2016)
A Arte de Ser Livre (2017)
As 10 Maiores Ideias da Filosofia (2018)
O que é ser humano (2019)
A Morte do Outro (2020)
Guia Politicamente Incorreto da Filosofia
Filosofia para corajosos
Política no cotidiano
(12)... e outras

3. RESSENTIMENTO

Percebo uma certa correlação entre o livro "A ERA DO RESSENTIMENTO", e o que expõe o filósofo coreano Byung Chul Han nos seus ensaios "SOCIEDADE DO CANSAÇO", "INFOCRACIA - Digitalização e a crise da democracia" e "VIDA CONTEMPLATIVA - Ou sobre a inatividade".

Focando o livro do filósofo Byung Chul Han, nos leva a perceber que o conceito da "SOCIEDADE DO CANSAÇO", refere-se à ideia de que  a sociedade contemporânea está nos levando a um estado de exaustão física e mental, devido ao excesso de trabalho, pressão por desempenho e busca incessante por felicidade".
Segundo Byung Chul Han, "vivemos em uma época em que as pessoas estão trabalhando mais horas do que nunca, e sofrem uma pressão constante para serem perfeitos, o que gera estresse, ansiedade e diminuição da qualidade de vida"
Nesse contexto, Byung critica a ideia de que a felicidade é um objetivo constante e que qualquer coisa menos do que isso, é um fracasso
Em vez disso, ele defende que precisamos mudar a forma como pensamos sobre o trabalho e a felicidade, aceitando que a vida é cheia de altos e baixos.
Além disso,Byung destaca que a sociedade do cansaço é caracterizada pela "violência neuronal", onde as pessoas cobram-se cada  vez mais para apresentar resultados, tornando-se elas mesmas vigilantes e punidoras de suas ações. Isso leva a uma sensação de inadequação e diminuição da autoestima.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA SOCIEDADE DO CANSAÇO:
1. Excesso de trabalho e pressão por desempenho;
2. Busca incessante por feliidade;
3. Violência neuronal e autocobrança;
4. Diminuição da qualidade de vida e aumento do estresse e da ansiedade.

"Ressentimento": o que é esse sentimento, e o que representa em nossa vida?
Seu sentido nos remete à ideia de irritação, amargura; é uma emoção que foi descrita como uma mistura de decepção, nojo, raiva, rancor, medo...
Outros psicólogos consideram um estado de espírito, ou uma emoção secundária, que pode ser ativada por um insulto, por uma injustiça, injúria etc.
É uma defesa contra situações injustas, ou circunstâncias desfavoráveis.

Na obra "A era do ressentimento", Pondé considera tal afeto, uma doença do nosso tempo. Ele aborda a construção social a partir desse afeto, e para tanto, analisa as relações sociais em suas diversas dimensões, destacando tanto seus aspectos conflitantes e suas dificuldades, propondo-se demonstrar a falta de organicidade e integração social, a partir desse sentimento.

Segundo Pondé, todos os movimentos significativos que alteram as relações humanas e históricas, nascem do desencontro e do sentimento de não pertencimento, do estranhamento de não se sentir parte do conjunto social.

Pondé afasta-se das noções sociológicas e filosóficas que interpretam a sociedade, como sendo o resultado de um processo integrado e orgânico, como é a história para Hegel e Marx, optando por seguir Daniel Bell, para quem "a sociedade e a História são disjuntivas" em suas dimensões constituintes.
Ou seja, não estão indo para lugar algum e é contraditória, se observada a soma dos elementos que compõem a sociedade e a vida como um todo.
Não há integração e nem organicidade.

Ironiza a ideia de que vivemos em "rede", o locus onde as pessoas se comunicam intensamente, construindo um "mundo melhor".
O fato das tecnologias informatizadas ampliarem o campo das comunicações, de existirem diversidades de relações globais e computadores que se comunicam, esses fatos não implicam a idéia de "redes" e significados integrados que indiquem o avanço da sociedade para um "mundo melhor".

Pondé refere-se a disjunção entre História e Sociedade, falta de sentido orgânico entre elas, apontando as três dimensões, que as compõem:

1. Estrutura Tecnoeconômica (sistema responsável pela produção e distribuição de bens e serviços), visando a redução da escassez, condição natural da vida;

2. Política (instância da Administração e do Poder, que legitima as ações e sua legalidade);

3. Cultural (dimensão que produz, organiza e distribui os valores simbólicos que identificam um grupamento humano, ou uma sociedade). Essa identidade simbolicamente construída pela cultura, nos diz quem somos, por que vivemos e o modo como vivemos.

A disjunção dessas três dimensões, acontece nas sociedades modernas avançadas, gerando conflitos contínuos nas estruturas, desestabilizando o Sistema, e sendo responsável pelo conjunto desintegrado da vida social, política e cultural.

A essa disjunção, que desintegra as três dimensões, e que se constitui como a contradição do Sistema, Pondé denomina "a era do ressentimento".

Segundo Pondé, tal disjunção se revela insolúvel, dando ao nosso século, por força das contradições do sistema capitalista,
o desacordo e o mal-estar permanente, o que desencadeia a "era do ressentimento".

O mundo contemporâneo é marcado pelo secularismo, que se caracteriza pela "vida racional", distante da "liturgia", que marcou a civilização cristã ocidental.
(Liturgia: é a compilação de ritos e cerimônias relativas aos ofícios divinos das igrejas cristãs. É uma palavra que se aplica mais a missas ou rituais da igreja católica.)

O mundo secular nasce com a modernidade e o distanciamento da vida religiosa comunitária. Sua marca é o profissionalismo, o individualismo e o industrialismo, sob o signo das democracias liberais assinaladas pelo consumo.
A emancipação feminina, é o fenômeno decorrente desse liberalismo.

"De qualquer forma, a marca definitiva do contemporâneo é o narcisismo estéril e o individualismo histérico."

Para Pondé, "contemporâneo" não é um conceito temporal, mas um estilo de vida. "Um acúmulo de crenças comumente relacionadas ao narcisismo e às suas soluções de continuidade."

Pondé assinala que o "ressentimento" é um problema profundo, um "drama ontológico"

"O ressentimento é nossa fúria para com a mortalidade que nos define e torna quase todas as nossas qualidades irrelevantes."

Interessante observar o olhar de Pondé, sobre o processo do envelhecimento:

"não envelhecemos, apodrecemos. A maturidade está fora de moda. O espelho é nosso algoz." (...) Difícil resistir ao pânico do envelhecimento. Mas hoje em dia, é pior porque são tantos os idosos, que sabemos que a maioria esmagadora não sabe nada de especial, apenas perdem as funções vitais e se tornam obsoletos.
 
Como resistir a esse desespero? Algumas cirurgias e livros de autoajuda, além de terapias baratas, nos ajudam a resistir ao terror do envelhecimento.
(...) O resultado é a aposta em envelhecer, mas se tornar, com os anos, um retardado feliz. À medida que a pele murcha, e o corpo cai, a alma se faz ridícula."

Pergunto: o que pensará de nós a posteridade?
E Pondé responde:

"Lembrarão de nós como mimados, ressentidos e covardes."

"O homem contemporâneo é, talvez, o mais covarde que já caminhou sobre a Terra, sobre a qual deixará sua marca de incompetência em lidar com a morte, a dor e o fracasso."

Não diria que Pondé, em seu livro, publicado em 2014, A ERA DO RESSENTIMENTO, é um pessimista, no sentido filosófico do termo. 
Não sei como hoje, dez anos após a publicação, pensa Pondé, a respeito de vários conceitos espalhados pelas páginas desse livro.
 
Não faço ideia. Sei que dez anos para um pensador, para quem mantém uma estreita relação de amor com a filosofia, é muito tempo!! 
Muitos conceitos se descristalizam, palavras ganham novos sentidos semânticos, conceitos são filhos mutantes da ciência, e como disse, não sei o que Pondé pensa desse seu filho, A ERA DO RESSENTIMENTO.

Sim, não conclui o que penso do posicionamento de Pondé, quanto ao seu olhar sobre a vida e os acontecimento que nos enredam.
O conceito de "ressentimento", em vários momentos da narrativa, surge dubiamente, o que causa alguma incerteza conceitual.
Não diria que Pondé é um pessimista, mas um "anarquista conceitual".
Um equilibrista, que passeia no fio distendido da sabedoria, no grande circo do conhecimento humano...
Sarcástico? Sim, em muitos momentos de suas reflexões, mas não na totalidade do texto.

29 de outubro de 2024
prof. mario moura